Prezados alunos,
Aos poucos estou conseguindo corrigir suas provas, tendo em vista que, por motivos que vocês bem conhecem, elas chegaram a mim com um certo atraso.
Corrigi todas as provas de Ensino e Aprendizagem de História I. No geral, achei que vocês avançaram bastante em relação às últimas avaliações. Todavia, ninguém “fechou” as provas. O principal problema foi a falta de estudos sistemáticos. Poucos certamente leram todo o material disponibilizado na plataforma. Alguns minutos de prosa comigo certamente também esclareceriam algumas opiniões bastante ultrapassadas da grande maioria de vocês.
Em primeiro lugar, gostaria que analisassem o seguinte quadro, que explica sucintamente as questões 1, 2 e 3.
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| SÉCULO XIX | SÉCULO XX |
| Sujeito histórico | Grandes figuras políticas, pertencentes às elites | As classes, os grupos subalternos, dominados, os escravos, os indivíduos comuns e até mesmo o clima, o solo, o mercado etc. |
| Documento | Fontes escritas oficiais | Qualquer evidência sobre o passado. De documentos escritos a relatos gravados em fitas cassetes. De quadros a filmes. De receitas a restos de comidas. De casas a móveis e utensílios domésticos, roupas, brinquedos, armas etc. Enfim, tudo que se relacione à atividade humana no tempo. |
| Processo histórico | Etapista, unilinear, teleológico (direcionado a um fim já conhecido) | Para uns, dialético (processo no qual do conflito entre dois lados opostos emerge uma síntese, que, em seguida, se opõe a outro dado, formando uma nova síntese e assim sucessivamente), para outros, composto por estruturas, conjunturas e acontecimentos (comparados agora a uma simples ponta de um iceberg). De forma geral, passou a abranger permanências, rupturas, transformações etc. |
| Temas preferidos | História política e das nações. | Tudo é história: história econômica, cultural, das mentalidades, de gênero, da alimentação, da religião, do corpo, do sexo, micro-história, etc. |
Esse quadro ajuda a esclarecer algumas confusões que vocês ainda fazem entre o que é “essencial” na história e o que se refere a um determinado momento da produção historiográfica.
O que difere disso foi comentado nas próprias provas de vocês.
Gostaria agora de chamar a atenção para algo que ninguém notou nos filmes assistidos. Não cobrei muito isso, embora devesse, pois ninguém me procurou para esclarecer as dúvidas sobre o significado dos filmes.
Para além de tudo que vocês disseram, a meu ver o mais importante é notar o conflito entre dois sentidos opostos, presente nos dois vídeos. Trata-se do conflito gerado entre o sentido histórico imposto “de cima para baixo” pelos grupos dominantes e o sentido histórico vivenciado pelas pessoas em suas vidas cotidianas.
Sempre que não refletimos sobre a condição histórica de nossa existência, outras pessoas fazem isso por nós. Mas por que é tão importante refletir sobre os aspectos históricos de nossas vidas?
Para qualquer ação que desejemos fazer, precisamos organizar em nossas consciências individuais o tempo que vivenciamos, ou melhor, que experimentamos. Por que seguro um prato de modo a não deixá-lo cair no chão? Essa é fácil! É por que, no passado, quando éramos crianças, certamente deixamos um prato cair no chão e vimos que ele se quebrou. Posso ter visto também outra pessoa fazendo isso. Sei, então, que quando um prato cai geralmente ele se quebra. Agora suponhamos que quero fazer raiva em alguém. Um jeito simples é pegar um prato na casa dessa pessoa e jogá-lo no chão. Isso certamente a enfurecerá. Desse modo, quando executo uma ação racional, isso, é, com um efeito futuro esperado, preciso agir no presente, com base num conhecimento do passado visando um efeito específico no futuro. Para atingir um fim futuro desejado (deixar um inimigo meu nervoso), devo usar um conhecimento guardado em minha memória (quando os pratos caem geralmente se quebram) e agir no presente com base nesse conhecimento (jogar o prato no chão). É claro que posso, da mesma forma, fazer outras coisas que enfureçam uma pessoa (fazer caretas, xingá-la, cantarolar uma música chata feito louco etc). Mas lembrem-se que isso é só um exemplo, OK? Não é para vocês saírem jogando os pratos dos outros no chão.
Brincadeiras a parte, suponhamos agora um caso mais complexo. Tomemos um exemplo retirado de um presente bem próximo: as eleições. Votar é uma ação presente que acarreta um efeito futuro. Ela é racional quando agimos com um fim esperado. Todavia, não basta recorrer à memória individual nesse caso. É necessário que eu busque um conhecimento produzido coletivamente. Para eu saber o que acontecerá caso determinado candidato ganhe a eleição, devo conhecer, primeiramente, a que grupo ele pertence e, em segundo lugar, quais foram as ações que esses grupos realizaram ao longo de suas respectivas trajetórias. Nesse segundo turno, sabíamos que os grupos ligados ao PSDB desejavam um Estado que interferisse o mínimo possível em suas transações financeiras, e, além disso, com o mínimo de gastos públicos possível, ou seja, com menos órgãos governamentais e mais empresas privadas (que são justamente as comandadas pelos grupos que defendiam esse tipo de governo). Do lado do PT, tínhamos também elementos comprometidos com grupos poderosos, mas com uma estratégia diferente de atuação do Estado (fortalecimento da economia interna por intermédio de programas sociais, do desenvolvimento da educação pública, da valorização dos servidores, da facilitação do crédito para aquisição de bens móveis, imóveis e de consumo, de uma política externa não subordinada aos interesses capitalistas norte-americanos etc.). Pudemos encontrar o conhecimento necessário para a execução dessa ação obrigatória (o voto) em diversos meios: a televisão, revistas, jornais, internet, mas também em trabalhos mais aprofundados, como artigos e obras completas acadêmicas. Poderíamos também ter aceitado apenas um deles ou conhecer vários e, com base em nossas necessidades individuais e coletivas, eleger os pontos mais proveitosos em cada um deles.
Antes de retornar aos vídeos, gostaria de concluir esse raciocínio, sem o qual vocês não entenderão o que eles propõe nem a função mais ampla da produção de conhecimento histórico.
Sempre que precisamos agir, ou agimos com base num conhecimento corriqueiro, cotidiano, ou, quando o resultado da ação no futuro é um tanto incerto, paramos, pensamos, refletimos e, na impossibilidade de chegar a uma conclusão, buscamos conhecimentos que vão além da nossa vivência diária. Quanto mais conhecimentos deste tipo temos em mãos, mais aptos para agir em diversas situações estamos.
Quando nossa ação interessa mais aos outros que a nós mesmos, eles em geral tentam influenciar nossa ação, ou pela força ou pelo convencimento. Ao atender um telefone, por exemplo, ajo com base no conhecimento cotidiano (não preciso refletir sobre a transformação da energia elétrica em sonora ou sobre a teoria da transmissão de dados para saber que posso falar com uma pessoa a distância por intermédio desse aparelho). Ao votar, não é possível agir com base no conhecimento cotidiano. Ou reflito por intermédio do conhecimento que adquiri a partir dos meus interesses individuais e grupais, ou aceito passivamente a vontade de pessoas que, em geral, querem tirar proveito da exploração de meu trabalho e desejam que eu viva para sempre na ignorância, de modo a continuarem explorando pessoas como eu.
O voto é apenas um exemplo. O que ocorre com a educação é muito mais importante de ser analisado. Com a proteção do patrimônio também. Se não reflito sobre a educação, me ensinam como devo agir sem que isso necessariamente seja bom para mim ou para minha comunidade. Podem destruir minha cidade, até mesmo minha casa, se me convencem de que isso não tem importância para o país. Foram exatamente essas duas situações que foram tratadas nos vídeos.
No episódio de Cidade dos homens, a professora reproduz um saber alienado da realidade daqueles garotos. Tenta ensinar-lhes uma série de acontecimentos políticos que lhes fazem parecer meros espectadores de uma realidade que lhes escapa ao controle. O protagonista da série não suporta aquela tentativa de imposição de algo que é chamado de realidade, de um sentido histórico que não lhe inclui. O que ele tenta fazer é mostrar que, para ele, a única disputa que faz sentido é o conflito gerado pelo tráfico, a disputa pelo poder local, que envolve a dominação de territórios que ele conhece como “morros”, “favelas”, “bocas” etc. No entanto, essa reflexão não basta. Ela precisa seguir adiante. É necessário estabelecer relações entre essa realidade distante e a familiar. Será que aquele garoto terá possibilidade de levar a diante suas reflexões (com as condições de vida e de educação das quais dispõe)? O primeiro passo foi dado: a problematização de um ensino imposto de cima para baixo. O segundo depende das melhorias das condições de vida e de educação da população em geral, algo que depende de uma ação coordenada, embasada num sólido conhecimento da realidade que é humana e, por conseguinte, histórica.
No filme Os narradores de Javé, mais uma vez é possível entrever esse conflito. Vi muitos de vocês dizerem que a culpa de Javé ter sido alagada foi dos moradores do povoado. Pelo contrário! A culpa desse acontecimento desastroso foi daqueles que calaram Javé pela imposição de um sentido histórico totalmente alheio à vida daquela população. O fato de não haver “uma única história” a ser narrada, de não ser possível encontrar “documentos” (veja que se trata de uma noção ultrapassada de documentos) que comprovassem essa “história”, significa acaso que não havia sentido na vida daquelas pessoas? Se isso fosse verdade, eles teriam provavelmente se suicidado antes de Javé ser alagada. Podia não haver sentido para uma elite que deseja expandir seus lucros por intermédio da construção de uma represa. Mas será que, para os habitantes daquele povoado, não havia sentido para suas vidas? Em outras palavras, será que não haveria um conhecimento do passado que justificasse a continuidade de suas vidas naquele povoado? Nesse caso, ou os moradores de Javé viveriam como os poderosos empresários desejavam (ou seja, de acordo com o sentido que era mais significativo para esses homens poderosos) ou simplesmente poderiam deixar de existir daquela forma. A verdade é que o sentido que a vida possuía para aquele povoado não interessava mais para o poder público, apoderado por grupos empresariais cujo maior objetivo é o lucro às custas dos trabalhadores.
Essa é a “moral” das duas histórias: ou refletimos sobre nossas próprias vidas, sobre nossa história, ou outras pessoas irão fazer isso por nós, dizendo o que devemos fazer e o porquê disso.
Em algumas provas fiz comentários mais longos. Contudo, no decorrer do trabalho de correção, ante a escassez de tempo, resumi um pouco os comentários. O texto acima ajudará a entender alguns erros e também alguns acertos.