segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Comentários sobre as provas de Ensino e Aprendizagem de História I

Texto destinado aos alunos de pedagogia, turma G4, polo Mata de São João/BA

Prezados alunos,


Aos poucos estou conseguindo corrigir suas provas, tendo em vista que, por motivos que vocês bem conhecem, elas chegaram a mim com um certo atraso.


Corrigi todas as provas de Ensino e Aprendizagem de História I. No geral, achei que vocês avançaram bastante em relação às últimas avaliações. Todavia, ninguém “fechou” as provas. O principal problema foi a falta de estudos sistemáticos. Poucos certamente leram todo o material disponibilizado na plataforma. Alguns minutos de prosa comigo certamente também esclareceriam algumas opiniões bastante ultrapassadas da grande maioria de vocês.


Em primeiro lugar, gostaria que analisassem o seguinte quadro, que explica sucintamente as questões 1, 2 e 3.



SÉCULO XIX

SÉCULO XX

Sujeito histórico

Grandes figuras políticas, pertencentes às elites

As classes, os grupos subalternos, dominados, os escravos, os indivíduos comuns e até mesmo o clima, o solo, o mercado etc.

Documento

Fontes escritas oficiais

Qualquer evidência sobre o passado. De documentos escritos a relatos gravados em fitas cassetes. De quadros a filmes. De receitas a restos de comidas. De casas a móveis e utensílios domésticos, roupas, brinquedos, armas etc. Enfim, tudo que se relacione à atividade humana no tempo.

Processo histórico

Etapista, unilinear, teleológico (direcionado a um fim já conhecido)

Para uns, dialético (processo no qual do conflito entre dois lados opostos emerge uma síntese, que, em seguida, se opõe a outro dado, formando uma nova síntese e assim sucessivamente), para outros, composto por estruturas, conjunturas e acontecimentos (comparados agora a uma simples ponta de um iceberg). De forma geral, passou a abranger permanências, rupturas, transformações etc.

Temas preferidos

História política e das nações.

Tudo é história: história econômica, cultural, das mentalidades, de gênero, da alimentação, da religião, do corpo, do sexo, micro-história, etc.


Esse quadro ajuda a esclarecer algumas confusões que vocês ainda fazem entre o que é “essencial” na história e o que se refere a um determinado momento da produção historiográfica.


O que difere disso foi comentado nas próprias provas de vocês.


Gostaria agora de chamar a atenção para algo que ninguém notou nos filmes assistidos. Não cobrei muito isso, embora devesse, pois ninguém me procurou para esclarecer as dúvidas sobre o significado dos filmes.


Para além de tudo que vocês disseram, a meu ver o mais importante é notar o conflito entre dois sentidos opostos, presente nos dois vídeos. Trata-se do conflito gerado entre o sentido histórico imposto “de cima para baixo” pelos grupos dominantes e o sentido histórico vivenciado pelas pessoas em suas vidas cotidianas.


Sempre que não refletimos sobre a condição histórica de nossa existência, outras pessoas fazem isso por nós. Mas por que é tão importante refletir sobre os aspectos históricos de nossas vidas?


Para qualquer ação que desejemos fazer, precisamos organizar em nossas consciências individuais o tempo que vivenciamos, ou melhor, que experimentamos. Por que seguro um prato de modo a não deixá-lo cair no chão? Essa é fácil! É por que, no passado, quando éramos crianças, certamente deixamos um prato cair no chão e vimos que ele se quebrou. Posso ter visto também outra pessoa fazendo isso. Sei, então, que quando um prato cai geralmente ele se quebra. Agora suponhamos que quero fazer raiva em alguém. Um jeito simples é pegar um prato na casa dessa pessoa e jogá-lo no chão. Isso certamente a enfurecerá. Desse modo, quando executo uma ação racional, isso, é, com um efeito futuro esperado, preciso agir no presente, com base num conhecimento do passado visando um efeito específico no futuro. Para atingir um fim futuro desejado (deixar um inimigo meu nervoso), devo usar um conhecimento guardado em minha memória (quando os pratos caem geralmente se quebram) e agir no presente com base nesse conhecimento (jogar o prato no chão). É claro que posso, da mesma forma, fazer outras coisas que enfureçam uma pessoa (fazer caretas, xingá-la, cantarolar uma música chata feito louco etc). Mas lembrem-se que isso é só um exemplo, OK? Não é para vocês saírem jogando os pratos dos outros no chão.


Brincadeiras a parte, suponhamos agora um caso mais complexo. Tomemos um exemplo retirado de um presente bem próximo: as eleições. Votar é uma ação presente que acarreta um efeito futuro. Ela é racional quando agimos com um fim esperado. Todavia, não basta recorrer à memória individual nesse caso. É necessário que eu busque um conhecimento produzido coletivamente. Para eu saber o que acontecerá caso determinado candidato ganhe a eleição, devo conhecer, primeiramente, a que grupo ele pertence e, em segundo lugar, quais foram as ações que esses grupos realizaram ao longo de suas respectivas trajetórias. Nesse segundo turno, sabíamos que os grupos ligados ao PSDB desejavam um Estado que interferisse o mínimo possível em suas transações financeiras, e, além disso, com o mínimo de gastos públicos possível, ou seja, com menos órgãos governamentais e mais empresas privadas (que são justamente as comandadas pelos grupos que defendiam esse tipo de governo). Do lado do PT, tínhamos também elementos comprometidos com grupos poderosos, mas com uma estratégia diferente de atuação do Estado (fortalecimento da economia interna por intermédio de programas sociais, do desenvolvimento da educação pública, da valorização dos servidores, da facilitação do crédito para aquisição de bens móveis, imóveis e de consumo, de uma política externa não subordinada aos interesses capitalistas norte-americanos etc.). Pudemos encontrar o conhecimento necessário para a execução dessa ação obrigatória (o voto) em diversos meios: a televisão, revistas, jornais, internet, mas também em trabalhos mais aprofundados, como artigos e obras completas acadêmicas. Poderíamos também ter aceitado apenas um deles ou conhecer vários e, com base em nossas necessidades individuais e coletivas, eleger os pontos mais proveitosos em cada um deles.


Antes de retornar aos vídeos, gostaria de concluir esse raciocínio, sem o qual vocês não entenderão o que eles propõe nem a função mais ampla da produção de conhecimento histórico.


Sempre que precisamos agir, ou agimos com base num conhecimento corriqueiro, cotidiano, ou, quando o resultado da ação no futuro é um tanto incerto, paramos, pensamos, refletimos e, na impossibilidade de chegar a uma conclusão, buscamos conhecimentos que vão além da nossa vivência diária. Quanto mais conhecimentos deste tipo temos em mãos, mais aptos para agir em diversas situações estamos.


Quando nossa ação interessa mais aos outros que a nós mesmos, eles em geral tentam influenciar nossa ação, ou pela força ou pelo convencimento. Ao atender um telefone, por exemplo, ajo com base no conhecimento cotidiano (não preciso refletir sobre a transformação da energia elétrica em sonora ou sobre a teoria da transmissão de dados para saber que posso falar com uma pessoa a distância por intermédio desse aparelho). Ao votar, não é possível agir com base no conhecimento cotidiano. Ou reflito por intermédio do conhecimento que adquiri a partir dos meus interesses individuais e grupais, ou aceito passivamente a vontade de pessoas que, em geral, querem tirar proveito da exploração de meu trabalho e desejam que eu viva para sempre na ignorância, de modo a continuarem explorando pessoas como eu.


O voto é apenas um exemplo. O que ocorre com a educação é muito mais importante de ser analisado. Com a proteção do patrimônio também. Se não reflito sobre a educação, me ensinam como devo agir sem que isso necessariamente seja bom para mim ou para minha comunidade. Podem destruir minha cidade, até mesmo minha casa, se me convencem de que isso não tem importância para o país. Foram exatamente essas duas situações que foram tratadas nos vídeos.


No episódio de Cidade dos homens, a professora reproduz um saber alienado da realidade daqueles garotos. Tenta ensinar-lhes uma série de acontecimentos políticos que lhes fazem parecer meros espectadores de uma realidade que lhes escapa ao controle. O protagonista da série não suporta aquela tentativa de imposição de algo que é chamado de realidade, de um sentido histórico que não lhe inclui. O que ele tenta fazer é mostrar que, para ele, a única disputa que faz sentido é o conflito gerado pelo tráfico, a disputa pelo poder local, que envolve a dominação de territórios que ele conhece como “morros”, “favelas”, “bocas” etc. No entanto, essa reflexão não basta. Ela precisa seguir adiante. É necessário estabelecer relações entre essa realidade distante e a familiar. Será que aquele garoto terá possibilidade de levar a diante suas reflexões (com as condições de vida e de educação das quais dispõe)? O primeiro passo foi dado: a problematização de um ensino imposto de cima para baixo. O segundo depende das melhorias das condições de vida e de educação da população em geral, algo que depende de uma ação coordenada, embasada num sólido conhecimento da realidade que é humana e, por conseguinte, histórica.


No filme Os narradores de Javé, mais uma vez é possível entrever esse conflito. Vi muitos de vocês dizerem que a culpa de Javé ter sido alagada foi dos moradores do povoado. Pelo contrário! A culpa desse acontecimento desastroso foi daqueles que calaram Javé pela imposição de um sentido histórico totalmente alheio à vida daquela população. O fato de não haver “uma única história” a ser narrada, de não ser possível encontrar “documentos” (veja que se trata de uma noção ultrapassada de documentos) que comprovassem essa “história”, significa acaso que não havia sentido na vida daquelas pessoas? Se isso fosse verdade, eles teriam provavelmente se suicidado antes de Javé ser alagada. Podia não haver sentido para uma elite que deseja expandir seus lucros por intermédio da construção de uma represa. Mas será que, para os habitantes daquele povoado, não havia sentido para suas vidas? Em outras palavras, será que não haveria um conhecimento do passado que justificasse a continuidade de suas vidas naquele povoado? Nesse caso, ou os moradores de Javé viveriam como os poderosos empresários desejavam (ou seja, de acordo com o sentido que era mais significativo para esses homens poderosos) ou simplesmente poderiam deixar de existir daquela forma. A verdade é que o sentido que a vida possuía para aquele povoado não interessava mais para o poder público, apoderado por grupos empresariais cujo maior objetivo é o lucro às custas dos trabalhadores.


Essa é a “moral” das duas histórias: ou refletimos sobre nossas próprias vidas, sobre nossa história, ou outras pessoas irão fazer isso por nós, dizendo o que devemos fazer e o porquê disso.


Em algumas provas fiz comentários mais longos. Contudo, no decorrer do trabalho de correção, ante a escassez de tempo, resumi um pouco os comentários. O texto acima ajudará a entender alguns erros e também alguns acertos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Carta aos areadenses

Há certos momentos que são como que epifânicos, isto é, nos permitem uma compreensão profunda da realidade a partir de um simples acontecimento. Foi um desses momentos de epifania que me conduziram, ansiosamente, a redigir essas “faíscas de compreensão” a respeito da micro-realidade areadense (“micro” pelo fato de estar sendo tomada em relação ao “todo” brasileiro).
Esse acontecimento epifânico se refere à notícia recebida há poucos dias por mim de que, tanto em Areado quanto em Alfenas (cidades culturalmente irmãs e historicamente filha e mãe, respectivamente), o candidato à presidência pelo PSDB havia alcançado a maioria dos votos. Tal fato foi revelador por conduzir imediatamente à reflexão sobre o próprio refletir do areadense.
Para que fique bem claro o que pretendo dizer a seguir, é importante que se esclareça, sucintamente, com qual sentido do verbo “refletir” pretendo me expressar.
Todas as pessoas possuem “cultura” ou “conhecimentos”. Assim não existem pessoas ditas “incultas”. O que varia é a maneira que o indivíduo se apropria desses conhecimentos, úteis à vida cotidiana: passivamente ou criticamente. Para tudo que faço necessito de conhecimentos. Agimos, diariamente, sem nos perguntar por que agimos de tal forma: para falar ao telefone, por exemplo, não preciso possuir saberes sobre transmissão de dados a distância ou sobre a transformação de energia elétrica em sonora. Por outro lado, se um boi refletisse sobre por que é conduzido ao matadouro, certamente não se deixaria levar para sua morte docilmente como o faz.
Assim, adquirimos determinados conhecimentos com base no senso comum, e isso é útil para a execução de determinadas tarefas cotidianas, pois não podemos parar e pensar sobre tudo aquilo que fazemos. Outros conhecimentos, por seu turno, nos conduzem à passividade e a sermos explorados, caso não reflitamos a seu respeito. E o que significa, afinal, refletir? Refletir, como a própria palavra o sugere, significa fazer ecoar em nossa mente uma ideia, afirmação, preceito, dogma, de modo a, confrontando isso com evidências concretas, atestar sua validade para uma vida mais condizente com nossas necessidades concretas de sobrevivência, com o bem comum de nossa comunidade, com nossa autonomia para agirmos de acordo com nossos princípios, que também devem ser constante alvo de reflexão. Deste modo, aceitar docilmente determinados valores, sem questionamento, sem reflexão, pode significar nossa condução aos matadouros de nossa existência.
Pois bem, é possível então afirmar que o areadense tem refletido sobre sua existência? De modo geral, é correto dizer que não, e não por culpa dele próprio. A comunidade areadense foi conformada, desde o início, numa divisão clara entre senhores proprietários de terra e seus empregados. Os primeiros sempre possuíram poder econômico e político suficiente para fazer valer suas vontades, enquanto que os segundos sempre tiveram que obedecer por falta de opção de emprego. Ou se aceitava lavrar as terras do potentado ou não haveria muito mais opções de trabalho neste local.
Com base nesse poder advindo da terra, os proprietários rurais areadenses puderam estruturar a sociedade que deles emergiu da forma que bem entenderam. A bem da verdade, são esses antigos proprietários de terra que nos legaram a elite econômica que hoje domina nossa cidade. É com base nos interesses individuais dos filhos dessa elite, que não tiveram, na maioria dos casos, que laborar na terra como seus pais, que são decididos os rumos políticos em nossa cidade. Os trabalhadores areadenses, com bases nos favores auferidos por essa elite de origem agrária, “retribuem” as benesses assim adquiridas (trabalho para si próprio e para seus filhos, empréstimos para saudar dívidas advindas de uma situação de pobreza endêmica possibilitada pelos baixos salários que essa mesma elite os paga etc.) acabam por votar nos candidatos pedidos por essa mesma elite. É comum ouvir o seguinte: “vou votar em fulano para ajudar o ‘sô’ ciclano, que foi muito bom para minha tia”.
O sistema de ensino local muito contribuiu também para que o areadense pobre conhecesse o “seu lugar”. Em primeiro lugar, devemos mencionar o “bom” ensino possibilitado pelas Irmãs de Nossa Senhora da Consolação. Graças a elas, nossas mães hoje, não obstante possuam formação escolar básica, aceitaram docilmente uma situação submissa em nossos lares e apropriaram-se de dogmas religiosos que, longe de ensinarem o amor ao próximo e à vida, inculcaram-lhes valores preconceituosos e racistas. Quem nunca ouviu em seus lares piadas preconceituosas em relação à negros e homossexuais? Conhecendo hoje outras localidades do estado e do país, posso afirmar, sem medo de estar sendo eu mesmo preconceituoso, que Areado conforma hoje uma das sociedades mais preconceituosas que conheço, algo vergonhoso para a democracia que se sonha estabelecer em nosso país. Posteriormente, o ensino laico (desvinculado da Igreja) em Areado adotou sem contestação o modelo tecnicista estabelecido pelo regime militar, cujo objetivo principal era formar a massa trabalhadora de modo que pudesse vender sua força de trabalho a preços ínfimos e incapacitar esse mesmo trabalhador de refletir sob a exploração de que tem sido vítima e de suas condições existenciais em geral.
Em síntese, formou-se em Areado uma comunidade submissa, ignorante de sua posição no contexto nacional, portadora de uma baixa estima cultural (uma vez que a incapacidade de reflexão possibilitou igualmente uma impossibilidade de valorização de sua rica cultura caipira) e que se auto-reproduz. Eu mesmo fui, por um longo período de minha vida, um ardente defensor de convicções católicas. Quando comecei a refletir sobre essas convicções, passando a notar que, para ter como valores principais para a ação o amor e a vida não seria necessário endossar dogmas totalmente alheios à melhoria da qualidade de vida das pessoas, inculcadora de medos e submissão, fui logo tachado de problemático. Outro exemplo: quem nunca ouviu dizer por aí que a pessoa que muito estuda fica louca? Não seria esse um dado do senso comum, inculcado na mente de pessoas que acriticamente levam suas vidas, forjado para impedir, pela admoestação moral, o pensamento crítico ou reflexivo?
Acredito que numa democracia todos têm o direito de expressar seus respectivos pontos de vista. Todavia, não há democracia sem reflexão. Por isso me pergunto: será que a maioria dos votos conseguidos pelo candidato do PSDB nessa cidade que tanto amo foi conquistada com base numa reflexão realmente crítica? Foram os programas políticos que foram considerados ou a personalidade dos candidatos? Os meios a partir dos quais se tem obtido informações sobre eles são realmente idôneos?
Após passar por um longo processo de reflexão acerca dos meus valores, continuo sendo cristão e guiando minha vida por atitudes que conduzam ao amor e à vida. Não tenho mais medo de ser castigado por Deus por questionar as condições de existência das pessoas que amo, quanto mais quando fica cada vez mais claro que a única forma de seguir os fundamentos do pensamento cristão, que não foram deturpados por mãos iníquas alojadas no seio da Igreja Católica, é agindo de forma autônoma, questionando, refletindo, não engolindo mentiras e não me deixando alienar por pessoas e grupos cujo principal interesse é o lucro e o bem estar individual, independentemente da qualidade de vida do próximo.
Caso você concorde com o que foi exposto aqui, isso é um simples convite à reflexão. Caso não concorde, isso também é um convite à reflexão. Caso você consiga refletir sobre o que aqui está escrito, creio que também poderá refletir sobre o que dizem os grandes meios de comunicação. Mas, para refletir, é necessário conhecer. Portanto, não podemos mais ter medo de conhecer. Devemos exigir o acesso ao conhecimento, não um “conhecimento bancário”, como diria Paulo Freire, mas um conhecimento crítico.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Proposta de utilização de fóruns nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA)

Desejo propor nesta atividade (1) uma forma diferenciada de utilização dos fóruns, a fim de ultrapassar a destinação tradicionalista que tem sido dada às ferramentas tecnológicas nos cursos a distância (a exemplo do próprio CEAD). Pretendo, desta forma, apresentar uma alternativa às práticas pedagógicas tradicionais “travestidas” numa roupagem tecnológica.
O objetivo desta atividade é possibilitar uma aprendizagem socialmente relevante aos alunos. Para tanto é necessário repensar a utilização dos fóruns.
Normalmente, os professores apresentam um conteúdo prévio na plataforma, que deve ser absorvido pelo aluno. Em seguida, utiliza-se o fórum como espaço de discussões acerca deste conteúdo. O fórum é utilizado, portanto, como uma ferramenta de interação mútua e de comunicação assíncrona cujo objetivo é possibilitar uma compreensão mais aprofundada de um conteúdo dado.
Todavia, o fato de oferecer uma ferramenta de interação não rompe, neste caso, com uma concepção pedagógica tradicional. O que adianta discutir acerca de um conteúdo sendo que o mesmo foi decidido autoritariamente pelos professores? Não se leva em consideração as aspirações e expectativas dos estudantes em relação à disciplina. Um aluno que, por exemplo, empolga-se ao verificar que participará de uma cadeira de filosofia, por acreditar que verá resolvidas algumas de suas indagações acerca do embasamento filosófico da “concepção pedagógica libertadora” (que poderia ser empregado com êxito em sua comunidade como alternativa às limitações institucionais de sua realidade escolar), facilmente se frustrará ao notar que o professor optou por tratar preferencialmente das características do pensamento liberal progressista ou “escola nova”. Não raramente o estudante é responsabilizado por seu não interesse em participar no fórum, quando isso é mais que compreensível pelo fato de que essa ferramenta não acrescenta nada mais que a discussão de um texto incapaz de lhe despertar o mínimo interesse. Não proponho com isso uma postura “não-diretiva” dos professores. Contudo, uma posição autoritária como essa não favorece o engajamento do aluno na construção de seu conhecimento acerca das práticas pedagógicas.
No intuito de tornar a aprendizagem mais significativa para o aluno, é possível usar o fórum de forma diversa. Proponho continuar utilizando-o como uma forma de favorecer o diálogo entre demais estudantes, tutores e professores (“interação mútua”), ainda que de forma assíncrona – é necessário lembrar que as ferramentas de comunicação assíncronas possuem uma vantagem, pois elas possibilitam uma maior elaboração e fundamentação das contribuições, proporcionando, por conseguinte, uma discussão mais aprofundada.
Entretanto, acredito que o modo de sua utilização (método) deve ser repensado. O fórum não deve ser disponibilizado apenas depois da montagem do conteúdo, mas, preferencialmente, antes disso. Proponho utilizar o fórum como forma de investigação das expectativas dos alunos em relação à disciplina ministrada. Assim, antes de impor um conteúdo alheio à realidade dos estudantes, o fórum pode possibilitar a compreensão das necessidades locais e individuais, indicando assim a escolha de um conteúdo relevante para as aspirações concretas dos alunos. Numa disciplina de Aprendizagem e Ensino de História, por exemplo, posso indagar aos alunos como eles acreditam que deve ser o curso de história no ensino fundamental e, a partir daí, analisar quais os pontos frágeis de entendimento, o que esses alunos ainda não sabem sobre o conhecimento histórico, quais seus déficits metodológicos e teóricos em relação ao debate historiográfico contemporâneo etc.
Dessa forma, partindo de um simples questionamento metodológico, pretendi propor uma ruptura com práticas pedagógicas tradicionalistas por intermédio da utilização de uma ferramenta corriqueira dos AVAs – o fórum. Esse rompimento deve visar uma aprendizagem diretamente relacionada com os aspectos sociais ligados à vida prática dos estudantes.

(1) Este texto foi pensado inicialmente para uma atividade do Curso de Capacitação de Tutores do CEAD-UFOP.

Sobre os riscos reais de uma estratégia propagandística equivocada

Estou um bocado preocupado com os rumos da propaganda política da Dilma. Com esta estratégia de ataque, é bem possível que a camada cujo conhecimento sobre a vida social é adquirido via mass medias associe a imagem da Dilma àquela que a direita tenta construir a seu respeito (comunista comedora de criancinhas etc.). Parafraseando Regina Duarte: "estou com medo".
Todavia, ainda que ocorra o desastre de uma vitória tucana, não podemos perder de vista o que Michel Lobrot, pedagogo francês, discípulo de Freinet, afirmou a respeito do poder popular:
"Admitir que as modificações começam por cima é supor que os indivíduos estão inteiramente determinados pelas estruturas hierárquicas dominantes, o que constitui o próprio postulado de qualquer ideologia reacionária. Se é efetivamente verdade que uma mudança de ‘regime’ modifica um tanto o meio e portanto a psicologia dos indivíduos, não é menos verdade que uma tal mudança, se se contenta apenas atingir o ‘regime’, não atinge de nenhuma forma as relações concretas dos indivíduos e a sua maneira de conceber a vida social".
É óbvio que o momento agora é o de garantir a continuidade das mudanças positivas auferidas por intermédio do governo encabeçado pelo PT. Todavia, não podemos acreditar que apenas isso garantirá uma existência igualitária aos brasileiros e perder de vista que as transformações institucionais começam no nível das ações sociais individuais.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aforismo #2

Assim como Rousseau, recuso-me a aceitar que o ser humano seja a negação do impulso de vida que deu origem a tudo que conhecemos atualmente. Nossas escolhas cotidianas implicam em optar pelo amor ou pelo ódio, pela vida ou pela morte. Tais escolhas podem embasar-se em graus variáveis de racionalidade. O certo é que a escolha pela satisfação individual (pregada pela ideologia do Estado mínimo) conduz ao esgotamento de sua fonte, ao consumo destrutivo e à ruptura dos laços sociais simbióticos. A ideologia liberal é como a motivação instintiva de uma colônia de bactérias que, habitando um corpo limitado, acaba por devorar a si mesma num ato autofágico desesperado.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Análise de Programas de Governo Alternativos - Parte I (PCB)


A partir deste post, pretendo analisar e, com isso, divulgar alguns programas políticos alternativos. Além de uma reflexão individual acerca das reais condições de avanços sociais neste evento de obrigatório posicionamento político nacional denominado “Eleições 2010”, desejo contribuir com o oferecimento de mais um ponto de discussão. Importante mencionar que “discussão” nada mais é que uma ferramenta cognitiva cuja principal virtude é expandir os limites da reflexão individual.

Inicio o projeto com a análise do programa de governo apresentado pelo Partido Comunista Brasileiro (21), cuja campanha é encabeçada pelo candidato Ivan Pinheiro.

Primeiramente, gostaria de fazer alguns apontamentos (leigos) de natureza teórica. Acredito que qualquer slogan do tipo “o capitalismo chegou a seu momento de crise” ou “agora chegou a hora da revolução socialista” é ou enganoso, ingênuo ou equivocado. O capitalismo sempre foi crítico ou, em outras palavras, desde sempre fez-se necessário sua substituição por sistemas mais justos. Em primeiro lugar, o capitalismo nunca entrou nem nunca entrará em crise se o considerarmos do ponto de vista daqueles que dele desfrutam. A riqueza e o poder cada vez mais se concentra nas mãos daqueles que encabeçam o sistema e, por conseguinte, cada vez mais essas pessoas detêm, como diria Pierre Bourdieu, o poder de nomeação da realidade, o que faz o sistema capitalista, ou o Estado mínimo neoliberal, parecer algo racional e natural. Portanto, a desnaturalização e modificação das condições de existência só pode se dar por intermédio da reflexão individual e pela mobilização coletiva, algo que desde o século XVIII tenta-se fazer. Ou seja, não é agora que cabe a revolução: essa já passou da hora e, assim sendo, a mobilização independe das condições contextuais de efetivação (o que não é verdade para as formas concretas de atuação), uma vez que o capitalismo já é crítico há muito tempo!

Nesse ponto, o programa do PCB é bastante cauteloso. Reconhece com cuidado e sem ingenuidade a atual e preocupante situação legada pela sucessão de sistemas neoliberais de governo, que, em termos sucintos, desmancharam as instituições públicas e, com isso, criaram uma complexa situação de desigualdade social, favorecendo as condições de lucratividade de determinados grupos empresariais (claramente identificados pelo programa). A atual configuração social, econômica, política e cultural do país é analisada metodicamente de modo que as alternativas propostas não caiam no idealismo ou na demagogia, tão ao gosto dos programas com muito dinheiro e pouca vontade de produção de mudanças favoráveis aos trabalhadores. Em outras palavras, trata-se de um programa concreto, com os pés fincados no chão, pautado num diagnóstico responsável.

Um ponto a ser discutido, no entanto, a meu ver, é o que analisa a sociedade brasileira a partir da categoria “estrutura de classes”. Seria interessante refletir sobre a eficácia dessa ferramenta analítica, empregada no caso em tela para a consideração da realidade social do país. Se os elementos capitalistas se organizassem realmente em “classes”, creio que não conheceríamos fenômenos tão característicos de nossa vida política como a infidelidade partidária e a corrupção estrutural. A meu ver, o capitalista típico, em seu modelo mais bem acabado, é aquele indivíduo cuja principal virtude é o empreendedorismo que objetiva o lucro imediato, atento aos movimentos do mercado, vidrado na competitividade a todo custo. Assim sendo, ele não está preocupado necessariamente em defender os ideais de sua classe (que pode sim existir desde que haja uma ação sistematicamente organizada e desde que isso implique momentaneamente em chances de lucros individuais). Ele deseja antes se ligar aos movimentos que representem vantagens imediatas à sua atividade lucrativa. Ele se liga facilmente aos consensos mínimos que demonstrem em seu horizonte vantagens individuais. Desse modo, a atividade individual do capitalista deve ser seriamente levada em consideração a fim de ser combatida. Lutar contra as “fações de classes capitalistas” é mirar o alvo errado.

Um ponto negligenciado pelo programa do PCB foi a política internacional para além da América Latina. Se com relação a essa delimitação geográfica o programa apresentou um projeto muito claro e eficiente, há uma clara lacuna no que diz respeito aos países asiáticos e africanos, algo que o governo Lula contemplou de forma muito bem sucedida, não obstante o tenha feito, como bem notado no programa do PCB, em conformidade com os anseios empresariais.

Um aspecto bastante pontual que merece ser destacado é o que se refere ao aborto. As mulheres pobres brasileiras têm sido constantemente criminalizadas, principalmente pela mídia golpista, ao procurarem clínicas clandestinas que oferecem técnicas abortivas. Pouco, no entanto, se fala a respeito das clínicas situadas em bairros de classe média-alta, nas quais garotas privilegiadas economicamente resolvem facilmente seus problemas afetivos e sociais, oriundos de vidas descompromissadas e hedonistas. Pouco também se aborda as reais condições que levam as jovens brasileiras a enfrentarem a legislação atual e decidirem a não arcar com as responsabilidades maternas. Aliás, a sociedade capitalista contemporânea favorece a maternidade, favorece a vida?

Todavia, creio que não basta descriminalizar o aborto. As mulheres devem ter total liberdade de escolha, mas também devem ser responsabilizadas por suas ações. Seus atos não devem ser tolhidos por uma perspectiva machista. As condições sociais que levam a uma maternidade indesejada devem ser consideradas. Contudo, as reais condições que levam a um aborto devem ser socialmente acompanhadas. Essa decisão deve ser orientada por outros valores, que não punam exclusivamente as mulheres e suas condições sociais desfavorecidas. Essa é uma questão complicada, que não envolve apenas a vontade subjetiva da mulher em conceber ou não. Deixando este tipo de decisão ao livre arbítrio individual, corremos também o risco de condenar à morte vidas ainda mal formadas, que podem sofrer injustamente pela irresponsabilidade de outros. A concepção não é fruto apenas de irresponsabilidade: outros fatores podem desaguar em situações de gravidez indesejada, inclusive relações de dominação masculina, social e econômica. Mas os casos devem ser analisados de forma responsável, de modo que valores sociais válidos, consensualmente definidos (e não impostos) sejam levados em conta. Enfim, é um problema que deve ser tratado em mais que duas linhas.

Afora os aspectos pontuais acima mencionados, deve-se destacar que o programa do PCB demonstra uma preocupação fundamental: o Estado deve proporcionar a vida com qualidade para o homem e para as demais formas de vida em geral, e não apenas para os empresários bem sucedidos. O modelo econômico e administrativo atual, baseado numa ideologia denominada “neoliberal”, prega a mínima interferência do Estado nas atividades comerciais. Todos os serviços públicos são paulatinamente transferidos para a iniciativa privada. No entanto, esse modelo apenas favorece os empresários que possuem mais condições de competição. Esses, em geral, não são brasileiros. Além disso, visam o lucro: os serviços que oferecem são caros. Se a saúde é privatizada, só quem pode pagar caros planos de saúde pode ter saúde. Se a educação é privatizada, o desenvolvimento cognitivo é diretamente proporcional ao montante de recursos disponíveis. Só que, para se ter recursos, é necessário estar no mercado, que é altamente competitivo e favorece aqueles poucos que têm condição de competir. E, completando o círculo vicioso, é impossível competir se não se tem dinheiro (a situação de 80% da população nacional): não é possível ter saúde e educação para tanto, condições básicas para a competição. A ideologia econômica liberal, desde Adam Smith, prega o “Estado mínimo” por acreditar que o mercado, por si só, indicaria quais ações econômicas seriam mais eficazes. Todavia, trata-se de uma ideologia econômica, e não mais que isso. A competitividade que ela pressupõe conduz ao aniquilamento de um indivíduo por outro. Não dá para todos usufruírem das atividades que se mostram mais lucrativas. Esta é a perspectiva que embasa os atuais governos, assistencialistas ou não.

O Estado deve servir à sociedade, e não a um número ínfimo de seus indivíduos. As riquezas geradas em seu território devem proporcionar a todos os seus entes condições de refletir sobre sua existência, sobre seu tempo e seu espaço, sobre as tecnologias que favoreçam o desenvolvimento da vida pensada em uma perspectiva ampla. Não se trata de reforçar a burocracia em detrimento dos trabalhadores. Pelo contrário: todos os trabalhadores devem se apossar dos instrumentos sociais que gerem a vida coletiva. O Estado deve ser pensado como um instrumento de ação realmente democrático de garantia da vida. E o programa do PCB, fruto de uma longa tradição de reflexão social, apresenta propostas concretas de socialização das decisões de alcance coletivo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Autodidatismo versus docência

Ferramentas de aprendizagem como o “Deutsch Interaktiv”, curso de alemão online oferecido site DW-Word (um dos braços da empresa de comunicação germânica Deustche Welle) nos leva a questionar sobre a real necessidade da intermediação do professor nos processos de ensino/aprendizagem.

A interatividade é justamente o elemento que torna possível ao aprendente prescindir de um outro sujeito na condução de seu aprimoramento cognitivo. O aluno opta inicialmente pelo nível a partir do qual irá iniciar o curso. Desde esse ponto já é possível, portanto, tomar decisões por conta própria por intermédio das ferramentas oferecidas. O curso em si também oferece outros instrumentos que tornam realmente eficaz a aprendizagem da língua estrangeira, como uma constante interação com elementos imagéticos e fonológicos, a apresentação de situações nas quais o internauta se vê obrigado a pensar em alemão e a especial atenção à construção de um sólido vocabulário, especialmente verbal. Em cada tela o aluno é obrigado a interagir com o conteúdo, condição sem a qual não é possível avançar para as páginas e lições seguintes. Além disso, ainda é possível contar com outros instrumentos que tornam a aprendizagem autodidata ainda mais promissora, como tradutores e dicionários virtuais.

O autodidatismo é um aspecto corriqueiro da vida social. Interiorizamos os conhecimentos disponíveis objetivamente de duas formas: ou por intermédio de outro sujeito ou por conta própria. Escolhemos o indivíduo que nos ensina pelo fato de o mesmo já haver passado pela experiência da interiorização do conhecimento que também desejamos obter. Desse modo “queimamos etapas”: o “professor” nos mostra o caminho mais fácil do aprendizado, nos poupa de termos de descobrir nós mesmos de que modo podemos compreender um objeto de modo a interiorizá-lo em nossa consciência individual. A “didática” poderia ser assim definida, numa perspectiva fenomenológica, como a facilitação da apropriação de objetos de saber por intermédio da intersubjetividade.

Todavia, quando não dispomos de outro indivíduo para nos poupar da dolorosa aventura que é conhecer, devemos compreender o objeto que desejamos interiorizar por meio de nossa própria experiência. Não podemos sempre utilizar a experiência prévia de outros indivíduos para aprender. Ou o indivíduo que já conhece não nos é acessível ou ele simplesmente não existe. Antes do advento da internet, o conhecimento extra-escolar era um objetivo arduamente alcançado por pessoas que, como eu, foram criadas por famílias humildes de cidades do interior. Via de regra não há quem lhe mastigue o saber, poupando-lhe da demorada tarefa da digestão.

O autodidatismo é inclusive algo desejado pela sociedade. Ele se mostra, portanto, a única forma possível de ampliarmos o conhecimento que temos do mundo, natural e humano. O avanço científico é sempre uma conquista individual socialmente possibilitada. A sociedade oferece ao cientista (um indivíduo formado para se tornar um autodidata, mas também um professor) um arcabouço de saberes pregressos e os meios materiais necessários para que, numa experiência puramente subjetiva, descubra quais os métodos podem permitir a compreensão ou a explicação de um objeto que é ou se tornou problemático pelo fato de não fazer parte do estoque social de conhecimento, ou seja, por ser desconhecido. O cientista é um indivíduo que é pago pelo seu autodidatismo e para divulgar e compartilhar o saber individualmente conquistado.

No entanto, a relação que guardamos com aquele que nos ensina é única. Ela é diferente de qualquer outra relação afetiva. O professor é a figura que desejamos superar. Quando nos dedicamos a compreender um objeto já interiorizado por nosso mestre, nossa meta é alcançar os mesmos resultados que ele. Quando o objetivo é o fortalecimento da identidade individual pela posse de um saber, o alvo é ainda mais ambicioso: almejamos aplicar a ferramenta oferecida pelo docente a outros objetos ou mesmo criar instrumentos novos a partir daquele que nos foi inicialmente oferecido. A única pessoa que nos dirá se alcançamos ou não os resultados individualmente pretendidos é o próprio mestre. É ele que nos propiciará essa satisfação. Daí a relação de amor e ódio que guardamos com os docentes. Independentemente da qualidade, ela sempre será intensa. Admiramos nossos mestres quando eles são as únicas pessoas que conhecemos que possuem as ferramentas para nossos objetivos individuais de saber. Ficamos enraivecidos com eles quando não reconhecem nossos avanços, quando nos negam o acesso ao conhecimento ou quando frustram nossas expectativas. Por mais que devamos reconhecer a figura humana de cada um dos polos da relação de ensino/aprendizagem, é preciso levar em conta esses elementos, por vezes cruéis, mas por outro lado fundamentais, da relação entre docente e discente e da construção social do conhecimento.

O autodidatismo se mostra cada vez mais eficaz no mundo da informação e do conhecimento. Entretanto, ele não possui a afetividade fundamental para a transmissão do saber que encontramos no ofício docente. O autodidatismo, ainda que dotado de interatividade, carece dos elementos afetivos da intersubjetividade, sem os quais o conhecimento socialmente construído perderia a eficácia e função hoje conhecidos.